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Domingo, 18 de Dezembro de 2005

O Sabor da Paixão

QUANDO REGRESSOU DE PARIS PARA DESCOBRIR QUE O NEGÓCIO DA FAMÍLIA HAVIA SIDO ENCERRADO NEM QUERIA ACREDITAR, MAS RAFAEL MUDOU TUDO.


O restaurante estava apinhado, todas as mesas ocupadas e alguns grupos barulhentos animavam a sala, com risos e conversas entrecruzadas. Catarina espreitou da cozinha e ficou satisfeita. Quem diria que, há apenas uns meses, o panorama era totalmente o oposto? Claro que casa cheia significava muito trabalho para satisfazer todas aquelas pessoas. Não tinha parado um segundo desde bem cedo, afinal, ela era a cozinheira e responsável pelo sucesso do pequeno restaurante.
Fazia quase um ano desde que assumira a gestão do negócio da família. A sua tia abrira o restaurante há 20 anos, um lugar modesto, com boa comida alentejana. Desde que a idosa senhora ficara incapaz de cozinhar, a reputação foi-se deteriorando e a clientela começou a escassear. Catarina crescera no meio de tachos e panelas, ansiosa por aprender os truques que a tia era tão ciosa para esconder.
Estava-lhe no sangue o gosto pela arte de bem cozinhar, estudara afincadamente para ser uma profissional competente e, depois de dois anos em Paris, regressava para encontrar o restaurante da família fechado. Com muito trabalho, começara a construir uma nova reputação, combinando a arte de bem comer com um ambiente requintado e agradável. Não fora fácil, mas estava a conseguir.
No final da noite estava estoirada e com uma vontade louca de cair na cama. Não ia ter essa satisfação tão cedo; uma empregada disse-lhe que estava um fiscal da Câmara Municipal à espera para falar com ela. Aquela gente trabalhava a estranhas horas, foi a única coisa que lhe ocorreu. Apressou-se a ir falar com o incómodo visitante. Apesar da roupa informal, o homem tinha um ar sisudo e até antipático. Estava ali por causa de uma denúncia de que o estabelecimento estava aberto depois do horário estipulado e o barulho incomodava os vizinhos. Só lhe faltava mais essa!
Irritada, perguntou-lhe se devia meter os clientes na rua, a meio da refeição, só porque passava da hora de encerrar. O seu argumento não o comoveu; informou-a de que ia ser penalizada pela irregularidade e que, no dia seguinte, passaria para fazer uma vistoria rigorosa nas instalações. Ele que viesse; não havia nada de irregular por ali e ela não ia perder o sono por causa de uma mesquinhez dessas.
Infelizmente, o fiscal chegou a uma conclusão diferente. Só lhe faltava ter de fazer obras no restaurante. Aonde é que ia arranjar o dinheiro? Só sabia que tinha 40 dias para colocar tudo em ordem. Catarina adiou o problema até conseguir ter uma solução e continuou a sua rotina, na esperança de que tudo se compusesse. Uma semana mais tarde, apanhou um susto quando espreitou da cozinha, para avaliar o movimento, e viu o fiscal sentado a uma mesa, ao lado de uma loira toda produzida.
Era só o que lhe faltava; estragava-lhe o negócio e tinha a lata de aparecer ali para jantar. A sua vontade foi cuspir na comida, mas lembrou-se de um dizer antigo que a tia adorava: "Não se apanham moscas com vinagre." Por isso, esmerou-se no preparado e apresentação da comida e até ofereceu uma garrafa de bom vinho para acompanhar a refeição. Em troca, recebeu um bilhete: "Vou considerar que foi uma gentileza e não um suborno."
A vontade de Catarina de esganar o homem era tanta, que teve de sufocar um grito entre um pano de cozinha. Mais calma, chegou à conclusão de que podia ser interpretada desse modo. Para sua infelicidade, o fiscal passou a vir almoçar todos os dias ao restaurante. Ela nem saía da cozinha, limitava-se a espreitar, sem entender aquela insistência. Será que vinha comprovar que as obras estavam a ser feitas? Um dia não se conteve e abordou-o quando ele já saboreava o café.
- Se pensa que por vir aqui todos os dias, vou ficar cheia de medo, está muito enganado. - O seu tom agressivo não teve o impacto que ela esperava.
- Nada disso, venho aqui porque a comida é excepcional. Tenho pena de ver tanto sabor desperdiçado. - Agora foi ela quem ficou desarmada. A conversa mudou de rumo e, despido do seu ar sisudo, Rafael provou-lhe que estava bem intencionado. Deu-lhe alguns contactos para ajudá-la a fazer as obras necessárias e até lhe conseguiu um prazo maior.
A partir desse dia, Catarina colocou a sua desconfiança de lado e, quando Rafael chegava, tinha sempre um tempinho para sentar-se ao pé dele e colocá-lo a par das inovações. No fim, o restaurante ficou muito melhor, com mais espaço e dentro da lei. Uma noite, Rafael apareceu com o seu habitual ar carrancudo. Pediu-lhe uma garrafa de vinho e sentou-se numa das mesas vagas. Catarina estranhou aquela distância toda, afinal, já se podiam considerar amigos, depois de tanto tempo. Ele disse-lhe para trazer dois copos e ela achou que aquilo devia ser um mau sinal. Fez o que ele lhe pediu e esperou pela má noticia.
Finalmente, com um sorriso maroto, Rafael estendeu-lhe um papel. Catarina nem quis acreditar: era o documento que legalizava o restaurante. Saltou da cadeira e abraçou-o. Só quando já estava atracada a ele é que percebeu o que estava a fazer. Rafael não a soltou, mantiveram-se abraçados até que o beijo se tornou inevitável. Catarina podia ter-se esquivado, mas também queria beijá-lo. Rafael contou-lhe que, no início, não tinha intenção de ajudá-la, mas, ao começar a frequentar o restaurante, mudou de ideias. Alguém que conseguia fazer sabores tão deliciosos, devia ser muito especial. Catarina sentiu-se lisonjeada, aquele era o melhor elogio que ele lhe podia fazer. Prometeu-lhe que ainda ia supreendê-lo mais, com outros sabores que ele nunca tinha provado antes.

Por: Fátima Pereira
publicado por mcapote às 22:03
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